24.11.11

Mais uma figurinha difícil é encontrada, de Paulo Malaria


Publicado na lista ProgBrasil com o título "Mais uma figurinha difícil é encontrada".

Mais uma vez peço vênia para falar de música não-prog nesta lista. Porém, em se considerando a época e os elementos desta história, sempre tem algo pertinente; quando não por mais nada, traz à memória um período muito criativo.

Eu sou um procurador de músicas. Trago no cérebro um farto repertório total ou parcialmente não identificado: às vezes não sei o intérprete, de outras só me lembro de uma frase ou refrão (que pode nem ser o título; aí é difícil) e algumas se resumem a um riff ou solo (aí é quase impossível, e tem uma dessas que está me martelando as ideias dizendo: "me acha se for capaz").

Nos últimos anos, meu principal desafio era achar uma balada blues, que escutei um número indefinido de vezes em alguma(s) rádio(s) na primeira metade dos anos 70, e que eu tinha razoável (mas não absoluta) certeza de se chamar "Timeless Time". Estava tudo no arquivo: o belo solo inicial, as 3 partes, a vaga lembrança de que o inglês era incipiente, que me levou a pensar poder tratar-se de uma daquelas "brazilian ballads" tão em voga naqueles tempos distantes. Mas o arranjo, isso eu lembrava, era mais rock do que a média das baladinhas nacionais. Sabia também que o vocalista dava um piti no final, em fade. Mas não tinha o
nome da banda ou cantor.

Os amigos sabem que enchi o saco de muita gente perguntando: "Afinal, quem tocava 'Timeless Time?" Mas ninguém tinha a resposta. Procurando na rede, encontrei algumas gravações homônimas, inclusive uma cujo ano (1970) e o intérprete (Peter Green, do Fleetwood Mac) a qualificava para o posto. Entretanto, uma vez escutada, demonstrou não ser a própria. E o mistério continuava. Não era um musicaço, mas agora eu não admitia a hipótese de que uma música que frequentou o airplay carioca tivesse desaparecido para sempre sem deixar vestígios. Não obstante, era o que parecia fadado a acontecer.

Devo ao amigo e colega de trabalho Ramon a solução desse mistério. O Ramon também gosta de progressivo, mas é especialista em baladas setentistas, campo no qual é sumidade imbatível. Semana passada, no trampo, ele veio me perguntar se eu conhecia uma banda chamada Gypsy Queen, que anos 70 gravou um compacto com "Love's in the air" ("Não é a discoteca do australiano", ressalvou logo) b/w "Everybody's searching". Ele tinha o disco, mas perdeu-o e não sabia onde achar a música. Keine ahnung, respondi-lhe, mas vou pesquisar. Aproveitei e falei do "Timeless Time". Ora, o pesquisador nessa história é o Ramon. Eu ainda estou nos tempos do Allmusic e Youtube. O cara fuçou em sites inimagináveis e mandou a resposta: existem 2 compactos do Gypsy Queen à venda em sites estrangeiros, mas custam uma fortuna (nem se encomenda um vinil raríssimo pelo correio, seria uma heresia).
"Acho que são os dois últimos do mundo, se eu não achar o meu", lamentou-se.

Quanto a "Timeless Time", ele apurou a existência de três músicas com este nome desconhecidas por mim (e até pelo Allmusic). Uma do grupo progressivo britânico Audience, que a gravou em 1969 no LP "Friend's Friend's Friend". O album está quase todo no Youtube e é assaz romendável. Outra do Bonzo Dog Dooh Dab Band, "comedy combo". E outra de D. D. Daugherty Dawn. Quando eu li esse nome, acendeu uma luz na memória: Acho que é isso. Já ouvi esse nome antes. E agora, onde ouvir a música, se não tem no Youtube?

Mas o Google é foda! Para "Timeless Time" ele era inservível, existem milhões de hits, mas foi só pedir "D. D. Daugherty Dawn" que veio a ficha toda, inclusive a música no Youtube, postada sob outro título, "Promenade entre l1Etang de Torcy et Montcenis":

http://www.youtube.com/watch?v=E5cVYzZgECE

Não há muito mais o que pesquisar, exceto isto: D. D. Daugherty Dawn lançou um compacto com "Timeless Time" b/w "Did'nt Work Out" (grafado assim mesmo) na França, pelo selo Aztec. A capa é um palhaço com fundo roxo. Talvez o motivo da ilustração esteja na letra do para mim ainda desconhecido lado B, ou quem sabe o vocalista se apresentava com trajes de clown. Não está esclarecido nem se DDDD era a banda ou o cantor, embora o desempenho instrumental me faça apostar na banda:

http://www.45toursderockfrancais.net/phpBB2/viewtopic.php?p=16361&sid=e4a798b2bc\1d67c3a175d91dfdd466c7

Outro site faz comentários sobre "Did'nt Work Out", dizendo que o órgão é fantástico, mas difícil de escutar:

http://www.ungawa.be/GARBAGE/garbage76.htm

Ainda não ouvi "Did'nt Work Out". Deve ser interessante.

Por fim, como foi que esta canção lançada na França, supostamente em 1971, chegou às rádios do Rio e aos meus ouvidos? Eis a resposta: o selo Aztec tinha algum tipo de representação ou parceria com outro mais conhecido, Red Bird Records ("menos desconhecido" seria mais adequado: chegou a lançar discos no Brasil). Em 1973, portanto dois anos depois, a Red Bird colocou nas prateleiras nacionais o LP coletânea "Sonzão", com uma eclética mistura de seus contratados, indo do saxofonista africano Manu Dibango (sim, a música era "Soul Makossa") até o coral gospel Today's People ("He"). Eram tempos mais tolerantes, porque a partir dos anos 80 ninguém ousaria produzir um picadinho destes. E lá, no meio dessa misturada, estava "Timeless Time". Alguma rádio tocou e eu escutei.

http://bugrim.blogspot.com/2011/07/varios-somzao-1973.html

Pronto, fim da história. Avisei que não era sobre rock progressivo nem tampouco a música era um would-be hit espetacular, mas a tenho escutado várias vezes desde que o mistério foi elucidado. Quem quiser que conte outra.

E vamos partir para novas descobertas! Como escrevi no começo, tem um riff de fim de música que grudou na minha cebaça - mas só que aí eu não lembro nem que tipo de música era... O desafio é bom!



Paulo Malária

9.11.11

Acidente fica em 54º lugar no Premio Vagalume



Hoje a mensagem é de agradecimento a todos que puderam, se lembraram e deram uma força pro ACIDENTE na votação do Premio Vagalume, onde concorremos na categoria "Sites Oficiais". O concurso terminou ontem, dia 8/11 e o Aça ficou na surpreendente 54ª colocação, com 903 votos, entre o site "João Marcelo e Caetano" (924 votos)  e "Regis Danese Oficial" (694 votos). 

2.11.11

O Modus Bajulandi continua o mesmo, de Paulo Malária

(Este texto é chato - mas leia)


Para quem ainda não sabe, sou co-fundador, tecladista e produtor dos discos da banda de rock independente Acidente Rock, "aquela banda que ninguém conhece mas todo mundo já ouviu falar", "33 anos e nem um sucesso", cuja história vocês podem conferir no excelente site www.acidente.ac, sob a direção do brother Helio Jenné.


Hoje em dia a palavra "independente" tem outra conotação. Foi mercadologicamente substituída por "indie", que se aplica a qualquer grupo modete, tendo ou não contrato com grande gravadora. (É fácil descobrir: se não tiver, você não fica sabendo que o grupo existe.) O Coldplay é "indie"...


Mas, no início dos anos 80, disco independente significava uma coisa bem específica: disco produzido pelos próprios músicos, gente alheia ao sinistro mercado da indústria mu$ical, e que, como represália, toda espécie de sacanagem. A mais comum era ignorar: somente uma estação entre as mais de 20 FMs cariocas programava nossas músicas (dépois, nem ela) e, quando tocávamos num evento com 10 bandas, a matéria no sepultado "Jornal do Brasil" (bíblia da intelligentzia da época) falava em 9, pois havia um fornido representante dos interesses das gravadoras bem azeitado para mandar excluir nosso nome.


Outra forma de sacanagem muito frequente era a indústria mu$ical pegar o que havíamos feito e mandar um de seus contratados fazer "igual diferente". Era aquele tipo de troço cientificamente estudado para não poder ser acusado de "plágio", mas o original sabia que havia sido vilmente sacaneado.
Pelos idos de 87 ou 88, cansados de perder consumidores para rockeiros que chegavam nas lojas e perguntavam: "Aí vende disco independente?", eles mandaram uma de suas bandas batizar seu novo LP de.. "Independente"! A partir daí, quando você chegava numa loja e fazia essa pergunta, o vendedor estava instruído para lhe mostrar o LP. Fiz esse teste várias vezes, até que cansei de me aborrecer.


Bom. Há alguns meses, o Acidente lançou seu CD "Rock", comemorando os 30 anos de lançamento do 1° LP independente de rock carioca, "Guerra Civil". A repercussão foi mínima. No início, parecia até que algo ia acontecer, pois o corajoso jornalista Arthur Dapieve registrou o lançamento com uma crônica de meia página no Segundo Caderno de "O Globo". Foi muito. Foi bom demais. Mas foi só. Nem mais uma linha na imprensa. Nenhuma rádio executou sequer uma vez alguma música de nosso CD.


Hoje abro o Segundo Caderno e lá está: matéria de capa para a comemoração de 25 anos do LP "Selvagem" dos Paralamas, um dos maiores investimentos da indústria mu$ical brasileira no gênero pop rock em todos os tempos.


Eu nunca ouvi falar em comemoração de 25 anos. Mas, vá lá: que seja coincidência. Os marketeiros que deflagraram essa campanha nem ouviram falar no Acidente e em seu relançamento. Tudo coincidência.


Só sei que a tal matéria me fez regredir por alguns instantes ao que eu sentia e pensava em 1986, auge do tal "Rock Brasil". E eu não gostei nem um pouco das lembranças.