30.9.10

Paulo Izecksohn + 70899 + Deputado Estadual + PTdoB

Desculpe-me incomodar para informar que sou candidato a deputado estadual pelo PT do B com o nome Paulo Izecksohn e o nº 70899, mas, no que dependeu da propaganda gratuita no rádio e na tv, você nunca recebeu essa informação. Vale para mim e para muitos outros candidatos, talvez a maioria. Estamos legalmente amordaçados para pela legislação que rege a propaganda eleitoral dita gratuita.

A lei eleitoral manda dividir o tempo gratuito desigualmente entre os partidos, conforme a quantidade de deputados federais de cada um. E cada partido, bem ou mal aquinhoado de tempo, é livre para distribui-lo entre seus candidatos conforme quiser.


 Partindo-se da premissa de que a propaganda gratuita convença mesmo os eleitores e decida seus votos, o que a lei pretende é manter a proporção dos partidos exatamente como estava quando foi criada, debatida e votada pelos próprios deputados federais, que se erigiram paradigmas eternos do tamanho de cada partido, mudando apenas as moscas. Isto para mim não é democracia, ou então querem que acreditemos que a eleição do general Medici também foi democrática, porque o princípio foi o mesmo: eu posso, eu mando, eu faço. A desculpa de que o tempo exíguo para os partidos pequenos visa impedir a exposição de arrivistas ao povo é cretina, pois nada impede que em grandes partidos se abriguem magotes de canalhas, corruptos, mentirosos, trapaceiros, até psicopatas perigosos, que dispõem de tempo à vontade e sempre se elegem, com os resultados conhecidos. E aí os legisladores não veem nada de errado em que essas criaturas engazopem o eleitorado e conquistem seus votos.


 Quando enfim os partidos menores recebem suas migalhas de tempo na propaganda gratuita, mais uma desigualdade: cada um deles tem seus puxadores de voto, que, como nos partidos grandões, ficam com a maior parte do tempo, uma vez que trazem votação para a legenda. A diferença é que nos partidos pequenos o tempo dos puxadores de voto já é ínfimo.


 Fácil perceber que um candidato nanico de um partido pequeno não tem vez na propaganda gratuita. Na eleição de 2008 eu fui candidato a vereador e tive 1 inserção de 5 segundos. Deu pra dizer meu nome, meu número e o slogan "O vereador que diz NÃO". Este ano, pelo visto, terei 5 segundos a menos. Que fazer? O maior puxador de voto do meu partido não terá, talvez, somadas todas as inserções, um total de 2 minutos na tela. Isto é o tempo que certos candidatos de partidos grandes aparecem na tv todo dia, várias vezes por dia, inclusive fora do horário político, em mini-programas de produção luxuosa, com direito a depoimentos de terceiros dizendo que eles são ótimos e agora tudo vai mudar.


 Mesmo se me tivessem dado 5 segundos, qual depoimento eu poderia colocar ali, se não dá tempo nem para dizer meu nome e meu número?

5 segundos não dá nem pra soltar um bom peido!
 Para o eleitor de mente simples, somente os candidatos que ele viu sempre na tv é que são os "sérios", e é dentre estes que escolherá aquele em que vai votar no domingo. Não pensa, o simplório, quais manobras seus preferidos terão armado para tomar conta com exclusividade de um horário que deveria ter sido dividido igualmente entre todos. É claro que este modo de proceder vai continuar no exercício do cargo.

Depois reclamam dos políticos. Mas têm que ver os políticos que elegem!

Tem outro aspecto: a fortuna que certos candidatos gastam em suas campanhas. Certo sábado apareceu aqui pela Urca um panfleteiro de uma candidata de boutique, dessas que se dizem "candidatura cidadã" e eufemismos desse tipo, que tanto falam ao coração dos chopeiros da Zona Sul. Carregava uma sacola pesada cheia de panfletos, e tinha sobre a cabeça uma placa com o nome da candidata. A placa era presa a uma estaca amarrada nas costas do infeliz, que assim não podia nem se curvar. Perguntei a ele quanto estava ganhando para fazer aquele serviço desumano. Ele respondeu: "200 reais por semana, mas não vale a pena. O trabalho começa todo dia de madrugada e não tem hora pra acabar". Perguntei-lhe então como a candidata podia saber que ele estava mesmo distribuindo panfletos. O rapaz explicou: "Em cada equipe nós somos 8, mais um supervisor que ninguém conhece e fica vigiando se os outros estão trabalhando. Pode ser qualquer um, até você." Calculei rapidamente: 200 reais vezes 8, mais o supervisor, supondo-se que receba o dobro = 2000 reais por semana, cada equipe. Segundo o panfleteiro, só esta candidata tinha dezenas de equipes a seu serviço. Ele não esclareceu se havia algum capataz terceirizando o serviço dos peões. E os panfleteiros são apenas uma gota d'água num oceano onde também boiam carros de som e outros meios de propaganda mais caros. Anúncio no jornal, por exemplo. "O Globo", "Extra" e "Expresso" instituíram 3ª e 6ª feira como os "dias dos candidatos". Nestes dias, os anúncios eram muito mais baratos (ou menos caros) que nos demais. No entanto, certos candidatos anunciavam todos os dias da semana, sem se importar com o custo. Este ano a lei determinou que o preço devia ser discretamente informado no anúncio, e cheguei a ver preços de 30 mil reais num Globo de domingo. Teve um canidato de boutique que, ao lado do preço, mandou escrever assim: "Contribuição cidadã". Então tá. Como é fácil embromar os néscios.

Cheguei à conclusão que tem candidato torrando mais de 1 milhão para ser eleito deputado. 5 milhões. 10 milhões, e mais até. Ora, isto é mais do que eles ganharão em 4 anos de mandato. Digo não só os proventos, com suas inúmeras verbas de representação e penduricalhos diversos, mas também toda a propina, toda a caixa 2 que puderem embolsar no exercício do cargo. Como ninguém rasga dinheiro, fica patente que não são esses candidatos que estão desembolsando os custos de suas campanhas. Eles se apresentam como pessoas físicas, mas são de fato os representantes na Câmara e nas Assembleias de interesses bilionários: construtoras, supermercados, empresas rodoviárias e aéreas, enfim, todos os lobbies que atravancam o Brasil, e para esses grupos, 10 milhões de reais não é nada, sai na urina. O importante é manter seus representantes nos postos chaves para poderem aprovar ou reprovar as votações que lhes interessam. Isso não tem preço. É impensável que um desses políticos perca seu lugar cativo para um novato movido por ideologia que pode virar a mesa. Não pode acontecer, todos os meios são válidos para que não aconteça.

E ainda tem a questão da apuração dos votos. Na eleição de 2008, quando concorri a vereador, tive zero voto na zona eleitoral onde votamos eu, minha mãe e meu pai. Comentei com o pessoal do partido e me disseram: "Cala tua boca, porque se você reclamar eles vão alegar que o computador não erra e portanto você não votou em você, é mentira sua. Então você concorreu para desmoralizar as eleições. Vão acabar lhe processando por crime eleitoral. Fica frio que um dia teu voto aparece". Pois aqui estou eu de volta a procurá-lo.

Mas a paciência tem limite.

Assim se entende por que foi que nos anos 60 incontáveis cidadãos, mesmo quando não eram comunistas nem diretamente perseguidos pela ditadura militar, desafiaram as regras do jogo e enfrentaram o regime da época, que também se dizia democrático (qual o que não?). Morreram muitos no caminho, outros tiveram suas vidas dilaceradas, o que é quase o mesmo que morrer, e uma "sole survivor" é candidata a presidente, com imensas chances de ganhar (só não ganha se sabotarem o avião dela). Será que esta senhora, em algum momento dos incontáveis minutos diários que lhes são concedidos nas telas de todo o Brasil, dedica um ínfimo pensamento às pessoas e aos pensamentos daquela fase de sua vida? Ou estará mais preocupada em conchavar com os antigos algozes, para que não lhe perturbem o governo?


 Vou lá. Meu slogan desta vez é "Indignação e Revolta". Quanto mais eu envelheço, mais curto fica o meu pavio.

Paulo Izecksohn - 70899 - PTdoB - Candidato oculto a Deputado Estadual



Paulo Izecksohn (a.k.a.) Paulo Malária é  compositor, tecladista e produtor da banda de rock Acidente.